Como o Guiabolso deseja (e caminha para) se tornar um hub de serviços financeiros

A fintech, que estreia escritório decorado pela WeWork, pretende oferecer os melhores serviços financeiros de acordo com o perfil de seus usuários

Como o Guiabolso deseja (e caminha para) se tornar um hub de serviços financeiros

A fintech, que estreia escritório decorado pela WeWork, pretende oferecer os melhores serviços financeiros de acordo com o perfil de seus usuários

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A fintech Guiabolso foi criada em 2012 pelos amigos Thiago Alvarez e Benjamin Gleason, que se conheceram enquanto trabalhavam na consultoria McKinsey&Co. Alvarez é brasileiro e Gleason é americano, e enquanto as duas culturas eram confrontadas diariamente, juntos eles começaram a detectar como os brasileiros tinham dificuldade em poupar e administrar as próprias finanças.

Os dois amigos uniram a experiência do mercado financeiro com o desejo de trabalhar em uma empresa com um grande propósito – o que Alvarez já havia experimentado como diretor financeiro na ONG Alfabetização Solidária -, e criaram a startup. O primeiro produto só surgiu um ano depois, em 2013, e foi um consultor financeiro que não deu certo. Na época, as pessoas faziam perguntas e o consultor respondia, mas para os resultados serem assertivos os usuários teriam que inserir seus dados corretos de renda, entre outros – o que não acontecia sempre.

Então os fundadores da startup decidiram solucionar esse problema usando uma ferramenta que nenhum outro aplicativo de planejamento financeiro tinha: a conexão dos dados bancários do cliente de forma automática, reduzindo – e muito – qualquer margem de erro. Inicialmente, a solução foi lançada para desktop, mas ganhou força quando foi lançada em aplicativo para os celulares.

“Quando começamos, tínhamos duas grandes dúvidas: se o brasileiro se preocupa com finanças ou não; e se eles dariam acesso às informações financeiras. As duas questões foram rapidamente respondidas com ‘sim’”, comenta Alvarez.

O que poderia ser uma grande barreira na implantação da solução se tornou um dos maiores pontos fortes para a fintech – afinal, ao mesmo tempo que não é do feitio do brasileiro logar a conta do banco em outras plataformas, disponibilizando todos os seus dados, inseri-los manualmente no aplicativo também não é uma experiência agradável.

“Temos um desafio: comunicamos mal toda a questão de segurança. A informação das pessoas está segura aqui, até porque o dinheiro não fica aqui de fato. Não temos nenhuma informação que permite fazer a movimentação bancária da pessoa, diferente das plataformas de e-commerce, que possuem o número de cartão de crédito”, explica o CEO da startup, complementando ainda que as informações bancárias dos usuários são criptografadas.

Para os usuários, ao avaliar pesos e medidas, confiar na startup e automatizar essa iniciativa significa, em troca, ter análises reais e assertivas da própria vida financeira – e este foi um modelo que deu certo. Na época, não se falava, ainda, em fintechs – muito menos o que elas poderiam fazer. “Quando nascemos, nós queríamos fazer coisas que o mercado não estava preparado”, comentou Thiago Alvarez.

Com a adoção do aplicativo, o Guiabolso pôde analisar ainda melhor o perfil financeiro dos brasileiros. “Percebemos que mais de 40% das pessoas estavam no cheque especial ou nos juros rotativos do cartão de crédito, e, quando olhávamos esse número, pensamos ‘poxa, tem formas mais baratas de tomar crédito, e a gente pode ajudar essas pessoas’”, explica Thiago.

Então, no início de 2017, a startup passou a sugerir empréstimos com taxas mais competitivas aos seus usuários. Foram quase três anos e US$ 23,5 milhões de investimentos recebidos depois, e a fintech passou a render lucro de acordo com as comissões recebidas, ao mesmo tempo em que auxilia seus clientes. “Em 90% dos casos, nós temos uma taxa menor do que os bancos. Entretanto, também temos o desafio de comunicar isso melhor – 15% dos usuários do Guiabolso pegam crédito conosco, esse número deveria ser 90% e não 15%”. A startup começou a realizar esse trabalho principalmente através do Just, sua plataforma específica para tal.

No entanto, a resistência antes não encontrada pelos usuários do Guiabolso se tornou presente em alguns dos players financeiros que poderiam oferecer crédito da maneira que a startup desejava: online. “Começamos a fazer nós mesmos, criamos uma operação de crédito e fomos crescendo. No final de 2016, os bancos voltaram e falaram que estavam prontos, que viram que a operação funcionava”, disse o CEO do Guiabolso.

Hoje, o Guiabolso possui parcerias com o Banco CBSS, BV Financeira e PortoCred Financeira para trazer opções de empréstimos aos clientes. Para o futuro, a intenção é de oferecer novos produtos financeiros.

A fintech prefere oferecer produtos de parceiros à alternativa de criar os próprios – a divisão Just ainda existe, mas foi diminuída após uma restruturação que demitiu 30% de seus funcionários – porque acredita que o mercado já possui boas alternativas. “As pessoas apenas não sabem ou não têm acesso a estes produtos, e a instituição financeira que tem um bom produto não consegue saber que você é um bom cliente, porque ela não te conhece. Como conhecemos o perfil dessas pessoas, conseguimos acabar com essa falta de conhecimento”, afirma Alvarez.

A virada de chave

Mas oferecer melhores opções de empréstimos para seus clientes não é a única recomendação em que o Guiabolso está trabalhando. Nesta terça-feira (25), a fintech lançou o Guia: inteligência artificial que traz sugestões de ações para os usuários – desde quanto podem gastar para ainda se manterem no orçamento, até se estão pagando taxas bancárias e juros maiores do que a média do mercado, recomendando outros e trazendo cupons de desconto de seus serviços mais utilizados.

A inteligência foi desenvolvida pelo time de tecnologia do Guiabolso, mas contou com uma ajuda de peso: o Google. Através do programa Launchpad Studio, o Google selecionou dez startups para auxiliá-las em algum projeto com inteligência artificial – e esta foi a escolha da fintech.

A novidade veio acompanhada de uma repaginação completa da marca – agora, o Guiabolso terá, definitivamente, o “b” minúsculo, poupando qualquer erro, além de novas fontes, cores e logo.

Antes, o logo da fintech era um sorrisinho azul dentro de um quadrado branco, agora, é a letra “G”. A letra G tem um traço adicional, fora o que já possui, para dar ideia de cifrão e mercado financeiro. Quanto às cores, a startup desejava se aproximar dos clientes. “Optamos pelas cores azul marinho e rosa, cores mais fortes, quebrando com as cores sóbrias que existiam antes”, explica Carolina Baracat, diretora de Marketing do Guiabolso.

Junto com essas novidades, o Guiabolso também está de casa nova. A fintech saiu da Avenida Faria Lima, sua terceira sede, e agora está localizada na Rua Butantã, 194 – em Pinheiros. O escritório foi o primeiro do Brasil decorado para uma empresa pela WeWork, rede mundial de co-workings, e está localizada em dois andares (e no mezanino) do novo prédio da rede que ainda está em reforma.

O novo escritório foi construído trazendo elementos das antigas sedes da fintech, como a varanda com cadeiras de plástico que existia na “Casa do Benja”. A “Casa do Benja” foi o local onde o Guiabolso foi criado, na casa de um de seus fundadores. O local foi a sede da fintech de março de 2012 a dezembro do mesmo ano.

Em 2013, a fintech mudou para a Mansão – uma casa com escritórios compartilhados, onde “o time se uniu ainda mais”. Ao mesmo tempo, a empresa lançava o site oficial com o consultor financeiro, que descobriram depois ser um fracasso. Para lembrar deste período, o Guiabolso trouxe uma das mesas da Mansão para a nova sede.

Em fevereiro do mesmo ano, nasceu, de forma orgânica, a primeira “Green Friday” – happy hour que acontece até hoje semanalmente, todas às sextas, para os colaboradores contarem as novidades da semana. A cor verde vem do logo original do Guiabolso, que contava com as cores verdes e azul. O logo está presente ainda em uma das salas de reunião do escritório.

Mas a cor verde também é protagonista do happy hour por outro motivo: todos os colaboradores que não usassem roupas verdes iriam realizar a vaquinha para pagar a cerveja da edição. Com o tempo, o time cresceu e a brincadeira foi ficando mais cara e a fintech passou a pagar pelas bebidas – mas a tradição de vir de verde continua, e todos que ainda a seguem têm direito a tirar uma foto em homenagem, que é publicada no Instagram privado e de diversão dos colaboradores do Guiabolso.

A cultura de autonomia do Guiabolso

Além da cor verde, na cultura da empresa ainda há espaço para a cor azul... e todas as outras. Todos os meses, em uma terça-feira – para combinar com o nome de “Blue Tuesday” – a fintech realiza uma palestra com um convidado sobre um assunto escolhido ou de interesse de seus colaboradores. A inspiração de “Blue Tuesday” veio da própria Green Friday, é claro, completando a dupla de cores do primeiro logo da empresa.

A fintech tem espaço para todas as outras cores porque a cultura de diversidade dentro do Guiabolso é palpável desde às cores do arco-íris no sofá do escritório ao banheiro unissex, criado por demanda dos colaboradores.

Também existem banheiros exclusivamente femininos ou masculinos na fintech

No início de 2017, os funcionários do Guiabolso criaram um Comitê de Diversidade para trazer o assunto em pauta na fintech, que possui funcionários que pertencem a sigla LGB – lésbicas, gays e bissexuais, faltando apenas colaboradores transexuais para completá-la. Tal como a Green Friday, o movimento surgiu a partir dos próprios funcionários devido a cultura de autonomia e liberdade imposta desde o início e que vai do trabalho exercido até para serem quem são.

“Temos um respeito muito grande pela diversidade. Eu trabalhei com bancos, mercado financeiro, e lá era tudo muito padronizado, não só a roupa, mas até a atitude, forma de falar”, comenta o CEO da startup. “A diversidade é realmente importante porque temos as melhores ideias em um ambiente mais diverso – se você já vai pensar em algo e todos pensam igual, não conseguirá ter ideias diferentes”.

O nono andar possui o sofá com bandeira LGBT

Além de serem inovadoras e escaláveis, as startups são conhecidas também por não terem um dresscode, compartilharem de um ambiente mais descontraído, desde às relações entre os colaboradores a decoração, e o Guiabolso não é diferente. O novo escritório possui salas de reunião com temáticas do Mário Bros ao grafite. E, para quem deseja, é liberado levar os filhos e cachorros não apenas para conhecer as instalações, mas para permanecerem durante o horário de trabalho.

Segundo Alvarez, o senso que guia a empresa que deseja ser o maior guia financeiro dos brasileiros é o propósito, diversidade e diversão. É comum que festas sejam realizadas, também organizadas pelos próprios funcionários - no dia da minha visita, a próxima delas era com o tema de Hollywood e havia lembretes em forma de cartazes em (quase) todos os ambientes do escritório.

O sentimento de descontração existe inclusive em assuntos sérios – a startup possui metas, como qualquer outra empresa, mas elas são compartilhadas para promover a colaboração entre os funcionários. "A verdade é que sempre precisamos de outras pessoas, e ter a meta compartilhada fomenta a cooperação e colaboração. Temos pessoas responsáveis por puxar essa meta compartilhada, mas várias pessoas contribuem para isso”, explicou Thiago Alvarez.

Nessa hora, os diretores também entram no caminho, mas apenas para auxiliar os colaboradores se for necessário. “Se a meta não for alcançada, todos os diretores se reúnem e questionam como podem ajudar, se podem ajudar. A abordagem não é de ‘nossa, não entregou’, nós trabalhamos juntos nisso”, disse o CEO.

Um hub de investimentos

Hoje, a startup une a expertise no mercado financeiro com um time forte e diverso e muita liberdade. É assim que o Guiabolso deixou de ser um consultor financeiro e passou a ser um gestor financeiro automatizado – que também recomenda os empréstimos que considera melhores – e está se tornando um aplicativo de gestão financeira que sugere o quanto os usuários devem gastar e quais são melhores serviços para eles, informando até se as tarifas bancárias pagas estão acima da média do mercado.

“Nós fomos juntando várias empresas, vários modelos em uma só, para conseguir construir tudo isso que a gente fez. É interessante ver a evolução acontecer no mundo do crédito, de começar do nada, quando não havia nem regulamentação, e agora ter isso tudo”, comenta Thiago.

Agora, os próximos passos são de atender ainda mais necessidades dos brasileiros ao oferecer também produtos de investimentos – a fintech já está testando a solução em parceria com a corretora Órama. “Queremos fazer o modelo dos empréstimos acontecer nos investimentos, nos seguros, no cartão de crédito – em todo o mercado financeiro”, explicou o CEO.

O que nos leva, consequentemente, ao próximo passo... O que vimos hoje, segundo Thiago Alvarez, é apenas a ponta do iceberg. O objetivo do Guiabolso é de se tornar um hub de serviços financeiros. “A ideia é que o usuário consiga agregar todas suas informações – se ele tem conta-corrente no Itaú, cartão do Nubank e investimento na XP, crédito em uma fintech, no Just... Queremos consolidar e organizar essa informação para ele em um lugar só”.

Desta forma, a fintech concentraria os diversos serviços oferecidos pelo mercado em apenas uma plataforma e os recomendaria aos usuários de acordo com seus perfis, com a ajuda do Guia. O hub de investimentos é a solução da startup que deseja trabalhar apenas com produtos financeiros de parceiros e, ao mesmo tempo, construir a melhor experiência possível aos usuários, impactando e melhorando suas vidas financeiras, consolidando-se como a empresa de propósito que foi desenhada para ser.

Fotos: Tainá Freitas e Guiabolso

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