O Brasil é o primeiro país a burocratizar a inovação - mas isso está prestes a mudar

A atual situação do país em relação a tecnologia, bem como as possibilidades de um governo que mude essa perspectiva, foram pautas no GovTech Brasil

O Brasil é o primeiro país a burocratizar a inovação - mas isso está prestes a mudar

A atual situação do país em relação a tecnologia, bem como as possibilidades de um governo que mude essa perspectiva, foram pautas no GovTech Brasil

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De acordo com o Global Connectivity Index 2018, o Brasil está na 44ª posição quando falamos de conectividade e preparo para a economia digital - o único país da América Latina que passa a frente no ranking é o Chile. Apesar do Brasil ter aumentado investimentos em 4G, big data e computação em nuvem nos últimos dois anos, o estudo aponta que a falta de infraestrutura nacional ainda é o principal motivo que impede o desenvolvimento tecnológico do país. A atual situação do país em relação a tecnologia, bem como as possibilidades de um governo que mude essa perspectiva, foram pautas no GovTech Brasil, um evento organizado pelo BrazilLAB e pelo ITS Rio.

No decorrer do evento, em um painel mediado pelo Procurador Geral MP-RJ, Eduardo Gussem, Luís Felipe Monteiro, Secretário de Tecnologia da Informação e Comunicação do Ministério do Planejamento, justificou a posição do país. De acordo com ele, isso se deve ao fato de que o Brasil começou a pensar em transformação digital tardiamente em comparação a países que ocupam o topo do ranking. “Crescemos sim, mas estamos muito longe do ideal  ainda”, diz Monteiro quando questionado sobre a atual conjuntura. Mas o Secretário é otimista em relação ao país - segundo ele, no futuro, os brasileiros não terão necessidade de tirar nenhum cartão de identidade.

Atualmente, já podemos ver iniciativas avançando nessa área, como o DNI Digital. O projeto-piloto, que segundo Monteiro traz o título de eleitor já acoplado, poderá até mesmo receber outros documentos, conforme convênios sejam firmados com órgãos públicos para a integração da base de informações.

Mas para viabilizar todos esses projetos, de acordo com Daniel Novy, da Consensys, é necessário criar leis e ambientes regulatórios favoráveis para desenvolvimento de um governo digital que suporte futuras inovações. “Regulamentação é o que mais o governo pode fazer para desenvolver e fortalecer as startups, que comandam a inovação. E, se não criarmos fundos de investimento para essas empresas, nós podemos perdê-las para outros países - o que já está acontecendo”.

Em contrapartida, Anowa Quarcoo, da CivicTech Toronto, acredita que não só o governo pode lutar pela transformação do governo de um país. “O governo não é o único órgão para realizar mudanças, os cidadãos conhecem seus problemas e podem até resolvê-los melhor do que o governo - eles só não tem cunho político. Nesse sentido, o governo só precisa começar a interagir com pessoas que não são do governo para, eventualmente, realizar mudanças”.

Quarcoo acredita que não basta implantar tecnologia somente para ganhar o selo de país digital. “Precisamos observar o fluxo de negócio e entender como cada tecnologia pode agregar e tornar o Estado eficiente - se inserirmos tecnologia em processos ruins, teremos soluções ruins”, diz. Além disso, de acordo com ela, é preciso instaurar uma cultura de inovação em cada governo, de modo que a mesma incentive o pensamento estratégico entre aqueles que compõe o mandato. Heidi Berner, uma das pessoas que encabeçaram a transformação digital no Chile, também compartilha dessa ideia e acrescenta que importante reunir o máximo de dados possível sobre cada iniciativa. “Precisamos levar em conta o monitoramento de cada tecnologia. No Chile, temos muita informação para passar para outro governo e dar continuidade ao projeto”, explica.

Mas onde está as informações no Brasil?

Após a discussão, Ronaldo Lemos, do ITS Rio, aprofundou a discussão sobre identidade digital e apresentou conceitos de registro, identidade e cadastro do cidadão. De acordo com ele, o Brasil possui 6 tipos de documentos que cumprem uma função identificatória, sendo desembolsados cerca de R$ 7 bilhões todo o ano para sustentar essa indústria. Para expor toda a questão da burocracia que envolve o país e, futuramente, reverter esse quadro, o especialista apresentou o Mapa da Informação, um documento que enfatiza os silos de informações relacionados aos documentos pessoais, que são fundamentais no relacionamento do Cidadão com o Estado.

Durante a apresentação, Ronaldo Lemos compartilhou um sonho, que também é considerado um desafio: fazer com que o Brasil passe a ser vanguarda e crie o mais avançado sistema de identidade digital. Mas, para que isso aconteça, o caminho será longo - apesar do país já tentar se inserir no mundo digital, visto que o governo disponibilizou 48 aplicativos próprios, a adesão dos mesmos é extremamente baixa. “O Brasil é o primeiro país a burocratizar a inovação. Temos 48 aplicativos governamentais, sendo que apenas 12,5% dos brasileiros já baixaram algum deles na vida. Em contrapartida, 58% dos brasileiros gostariam de ver mais tecnologia no governo”, explica Lemos.

Mas de acordo com ele, apesar do cenário incerto, a mudança ainda acontecer dado aos ótimos exemplos que podem ser tomados como ponto de partida e a capacidade criativa do brasileiro, aliada à necessidade. “Há modelos testados e isso é um ativo muito importante para o Brasil. A gente pode não só olhar para o que existe, mas para o que vem por aí”, finaliza.

Mais autonomia ao cidadão e menos corrupção

Após a apresentação do Mapa da Informação, um painel reuniu visões diferentes e complementares sobre como um governo e a identidade digital podem contribuir para combater a burocracia e melhorar a democracia. De acordo com Antti Poikola, da Sovrin Foundation, uma boa saída é a identidade auto-soberana - com ela, os indivíduos deixarão depender que uma terceira entidade emita um identificador sobre si mesmo. Antti explica que o indivíduo será capaz de criar os seus próprios identificadores, detendo o controle e posse dos mesmos, bem como que informações a serem compartilhadas, com quem e em quais condições.  

Além de dar uma certa autonomia ao cidadão, de acordo com Liia Hänni, da E-Governance Academy, sistemas e tecnologias como as apresentadas durante o primeiro dia de evento ajudarão a reduzir a corrupção de forma significativa.

Como o setor privado contribui para soluções sociais?

O destaque do primeiro dia do GovTech Brasil 2018, sem dúvidas, foi o bate-papo com Bill McGlashan, da The Rise Fund e TPG Growth. Luciano Hulk e Ronaldo Lemos conversaram com o investidor, que é uma referência em gerar investimentos consistentes em startups e empresas que geram um impacto positivo no mundo, e o questionaram sobre o que uma startup (ou fundador) precisa ter para conquistar o capital do fundo. De acordo com McGlashan, além do talento e de um conjunto de habilidade básicas exigidas na Nova Economia, o empreendedor precisa acreditar em sua empresa e no impacto que a mesma causará no mercado que está inserido.

Luciano Hulk e Ronaldo Lemos conversaram com Bill McGlashan sobre investimento de impacto, inovação, governo e sociedade. 

Segundo McGlashan, o capitalismo passou por uma grande fase em que foi amoral - guiado estritamente pelo lucro. Mas, principalmente com a presença dos fundos de impacto, ele está relacionado ao futuro do investimento e na mensuração do impacto social e ambiental que os mesmos causam. “Os fundos de impacto causam impacto em toda uma sociedade por meio do seu capital, porque as pessoas começam a produzir mais e tudo isso aumenta a renda das famílias. Consequentemente, com uma renda maior, elas investem mais em saúde e educação - tudo melhorará”, diz.

Além disso, segundo o investidor, o lucro não é algo necessariamente ruim, principalmente quando associado a uma melhoria da qualidade de vida da população. “Quanto mais uma empresa se sustenta economicamente, mais ela amplia a transformação e o impacto positivo que causa com a sua atividade”. Quando questionado sobre fazer ou não parceria com o governo para causar ainda mais impacto na sociedade, o investidor revela que no começo era relutante. “Eu evitada criar relações com o governo”, revela. Mas agora parece que McGlashan mudou um pouco de ideia - ele afirma que, se tiver sinergia e objetivo em comum, é possível trabalhar junto com o Estado para melhorar a vida da população.

*Foto: GovTech/ Gladstone Campos

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