O grão de arroz que se tornou uma montanha de tecnologia: conheça a história da Xiaomi

No último dia 09 de julho, a empresa abriu seu capital na bolsa de valores de Hong Kong e passou a valer US$ 54 bilhões

O grão de arroz que se tornou uma montanha de tecnologia: conheça a história da Xiaomi

No último dia 09 de julho, a empresa abriu seu capital na bolsa de valores de Hong Kong e passou a valer US$ 54 bilhões

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O cenário: guerra sino-japonesa. Mao Tse Tung exclamava que a China combatia seus adversários com “rifles e xiaomi”. Em chinês, o termo xiaomi significa "grão de arroz". Aproveito ainda esse espaço para apresentar uma outra situação: no budismo, existe um ditado que diz que “um único grão de arroz é capaz de ser tão incrível quanto uma montanha”. Entende onde quero chegar? A gigante de smartphones chinesa, que de grão em grão, conseguiu montar um modelo de negócios inovador e que hoje é capaz de oferecer produtos do tamanho de uma montanha.

“Futuramente, falaremos da Xiaomi da mesma forma que falamos do Google e da Apple”, já pontuou o brasileiro e ex porta-voz internacional da companhia, Hugo Barra, ao site AllThingsD. 

A Xiaomi (lê-se Xau-mi), até pouco tempo, era considerada a 2ª startup mais valiosa do mundo, com um valuation de US$ 45 bilhões (ou R$ 127 bilhões). No último dia 09 de julho, a empresa abriu seu capital na bolsa de valores de Hong Kong e passou a valer US$ 54 bilhões.

A Xiaomi foi criada em abril de 2010, por oito sócios - todos ex-executivos de empresas como Google, Motorola e Microsoft. São apenas 8 anos de existência. 8 anos suficientes para a empresa reafirmar sua posição no mercado e se tornar uma inesperada pedra no sapato dos grandes fabricantes de smartphones.

Hoje, já é a terceira potência do segmento em número de vendas, depois da Samsung e da Apple. Em 2014, foram registradas 61,1 milhões de unidades vendidas - cinco de cada oito celulares Android eram Xiaomi. O mais impressionante? Conseguiram esses números vendendo apenas na China, Taiwan, Malásia, Singapura, Índia e Indonésia. Razoavelmente um “mercado doméstico”, que garantiu à Xiaomi o título de gigante da Ásia.

Dos oito sócios, válida a menção para o homem que conduziu a Xiaomi através dos pormenores dessa trajetória: o sócio-fundador Bin Lin. Antes, entre 2006 e 2010, Bin era o Diretor de Engenharia do Google. Ele fundou e liderou o desenvolvimento e engenharia de produtos do Google para dispositivos móveis, aplicativos para Android e Google Music. Sob a liderança de Bin, sua equipe lançou com sucesso muitos produtos do Google para o mercado da China, incluindo mapas, pesquisa de voz em mandarim, verticais móveis como vídeo, dicionário, finanças, notícias, widget de tempo e vários outros features.

Antes ainda do Google, Bin trabalhou na Microsoft e ocupou vários cargos seniores. Em 2003, ele atuou como Diretor de Desenvolvimento da Microsoft e co-fundou o Centro de Tecnologia Avançada (ATC) da Microsoft em Pequim. De 2000 a 2003, Bin foi Gerente Sênior de Desenvolvimento da Microsoft Research Asia. De 1995 a 2000, foi Engenheiro de Design de Software e líder de desenvolvimento na sede da Microsoft em Redmond. Bin também é professor substituto das universidades de Zhejiang (Hangzhou), a primeira universidade de negócios da China, a qual a Missão StartSe teve uma aula magna sobre e-commerce, Zhongshan (Guangzhou), Nankai (Tiajin) e Tongji (Xangai). Experiências essas que o credenciaram para conduzir um negócio do tamanho da Xiaomi.

Falando em tamanho, apesar da montanha que o pequeno grão de arroz se tornou, a Xiaomi se considera e se comporta como uma startup. Em termos de hardware, a Xiaomi possui componentes de última geração a preços relativamente ajustados. Tudo por conta de um vasto mercado doméstico, trabalhadores qualificados e de baixo custo e um ecossistema de manufatura da próxima geração.  Lin já deu a entender que o volume de produção sempre foi a chave para manter os preços competitivos.

Um Xiaomi é um Android, mas com um software próprio que o modifica inteiramente - ele acaba parecendo mais com um iPhone do que com um modelo do sistema operacional do Google em si. Mais do que a aparência, um Xiaomi possui sua própria loja de aplicativos e toda sexta-feira é atualizado – de segunda a quarta é sempre criada uma nova versão para verificar o desempenho de seu software. Durante o fim de semana são revisadas sugestões e aplicadas em novas versões. Um modelo de negócios participativo que é digno de menção. Os fãs, como são lidados os consumidores dentro da startup, propõe modificações e avanços em seus fóruns oficiais.

Essa é uma palinha do que iremos destrinchar. O começo da startup, as dificuldades encontradas no meio do caminho, a volta por cima, o brasileiro Hugo Barra, o momento presente e como e quais Xiaomi estão disponíveis no mercado brasileiro. Confira:

O começo de tudo

A Xiaomi lançou a primeira versão do sistema MIUI em 2010. Era uma interface do Android 2.2, que só tinha o chinês como idioma. No ano seguinte, apresentou seu primeiro hardware: o Xiaomi Mi1, primeiro smartphone chinês com chip dual-core e boas especificações técnicas. Com um preço relativamente baixo, foram mais de 300 mil pedidos de pré-venda em menos de dois dias. É nesse momento que os conceitos que caracterizam a Xiaomi até hoje se tornavam evidentes: um design mais próximo do iOS, com especificações brutas e um preço surpreendente.

Na sequência, vieram os modelos Mi2 e Mi3, que também foram um sucesso no mercado chinês. Mas foi com o Mi4, talvez um dos modelos mais poderosos da companhia, que a Xiaomi começou a pensar em internacionalização. O ano era 2014 e a empresa começou a olhar para os mercados de Singapura e Índia, além de adquirir o domínio “mi.com”, que ajudou a fortalecer a marca. Mi, para a Xiaomi, ganhou o significado de Mobile Internet. Um dos motes dessa história, que a partir daí transformaria tudo e expandiria a oferta de produtos da Xiaomi para outro patamar. Não estamos falando apenas de uma empresa de smartphones, mas sim de uma empresa de tecnologia que entrega smartphones e outros produtos. Há uma grande diferença epistemológica nessa frase. E ela é importante para entender o sucesso da Xiaomi.

Loja Mi Xiaomi

Barreiras encontradas pelo meio do caminho

MIUI, Mi1, Mi2, Mi3, Mi4... Tudo certo até então. A questão é que a Xiaomi brigava por um mercado já claramente dominado pela Apple e pelo Google. Ambas as companhias tinham quilometragem maior e suficiente para confirmar e reafirmar suas posições de liderança no segmento. Embora a Xiaomi tenha feito um belo trabalho local, o Ocidente ainda olhava para produtos chineses com certo preconceito. Na China, tudo corria bem; no resto do mundo, a empresa ainda era assimilada pejorativamente pela qualidade de seus produtos – um equívoco e uma concepção generalizada.

Em meio a tudo isso, as inevitáveis comparações com a Apple. O Mi Pad tem as mesmas cores do iPhone 5C, o sistema MIUI 6 foi acusado de ser uma cópia do iOS 7 e o minirroteador da Xiaomi é igual ao Magic Trackpad. A verdade é que a empresa se espelha na Apple, mas no que diz respeito ao marketing e qualidade. No modelo de negócios, algumas diferenciações: a Apple sempre focou em inovação, enquanto a Xiaomi entrega o que o seu “fã” precisa. Ambas entregam smartphones de ponta, mas a Xiaomi não é sustentada em exageros e megalomania; ela faz o que tem que ser feito e dá muita atenção ao feedback de seus consumidores. Boa parte dos novos recursos, que semanalmente entram em um aparelho Xiaomi, está na conta dos usuários.

O CEO e sócio-fundador Lei Jun já comparou a estratégia de sua companhia ao kung fu, arte marcial a qual velocidade define tudo. Velocidade e interatividade são duas palavras-chave no modelo de negócios da startup.

A volta por cima...

... tem nome: Redmi. Componentes mais baratos e preços ainda mais acessíveis garantiram à família Redmi, em 2015, o recorde de “mais smartphones vendidos em um só dia através de uma plataforma online” - foram 2,1 milhões de dispositivos transacionados no site Mi.com. Um belo presente para o 5º ano de vida da companhia.

Mas pera aí: como a Xiaomi conseguiu, lançamento após lançamento, baratear ainda mais seus custos, sem ter uma queda considerável na qualidade de seus produtos? A resposta está na fabricação: local e com parceiros locais, além de optar pela promoção de seu ambiente online sobre o físico.

A China tem um ecossistema de fabricação de classe mundial para componentes eletrônicos, com a infraestrutura física, logística e recursos de fabricação necessários. Ter um ecossistema de manufatura confere vários benefícios. Em primeiro lugar, as empresas chinesas podem realizar prototipagem rápida e encurtar o tempo para lançamentos de novos produtos.

A empresa controla bem seu estoque e possui uma estratégia de marketing eficiente e agressiva, o que a garante assertividade na hora de oferecer qualquer coisa que seja. Os “fãs”, como já dito, consomem e promovem a marca. É um ciclo validado. Como a Apple no Ocidente, a Xiaomi fideliza seu público no Oriente e consegue entregar cada vez mais produtos sem as barreiras de comparação. A Xiaomi, nesse momento, ultrapassa os 5D’s do crescimento exponencial (digitalização, decepção, disrupção, desmonetização, desmaterialização), para chegar ao 6º e último D: democratização.

A volta por cima acontece a partir do momento que a Xiaomi democratiza. E quando isso acontece...

... não estamos mais falando apenas sobre smartphones:

A Xiaomi vem forte em diversos segmentos: Internet das Coisas (IoT), aspiradores, monitores de pressão sanguínea, purificadores de ar, drones, roteadores, televisores, action cam, home speakers, patinetes elétricos... e a lista continua.

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